Antônio Ignácio da Silva, conhecido na história como o cangaceiro Moreno, atravessou um dos períodos mais violentos e emblemáticos do Nordeste brasileiro e saiu dele vivo. Nascido em 1909, de origem indígena da nação Pankararu, ele se tornaria um dos homens de maior confiança de Lampião e Maria Bonita, carregando a famade guerreiro temido, disciplinado e sanguinário, moldado pelas duras leis do cangaço e pela perseguição incessante das volantes policiais.

Dentro do bando, Moreno não era apenas mais um rifle. Era considerado homem de responsabilidade, escolhido para missões delicadas e respeitado pela frieza em combate. O cangaço, porém, não lhe deu apenas violência. No meio da caatinga, ele viveu um romance intenso com a cangaceira Durvinha, relação marcada por afeto, medo e escolhas extremas. Ainda no cangaço, o casal teve um filho, mas a realidade brutal da vida em fuga os obrigou a tomar uma decisão dolorosa: entregar a criança a um padre, temendo que o choro do bebê denunciasse a posição do grupo e levasse todos à morte.

A queda de Lampião em 1938 representou o fim de uma era, mas também abriu caminho para a fuga de alguns poucos sobreviventes. Moreno e Durvinha conseguiram escapar da caçada implacável que se seguiu e, em 1940, deixaram definitivamente o Nordeste, refugiando-se em Minas Gerais.
Para sobreviver, apagaram o passado. Moreno passou a se chamar José Antônio Souto, enquanto Durvinha adotou o nome de Jovina Maria. Sob essas novas identidades, construíram uma vida simples, discreta e silenciosa, mantendo o segredo do cangaço até mesmo dos cinco filhos que tiveram ao longo das décadas.Por mais de sessenta anos, o passado permaneceu enterrado. Moreno trabalhou, criou a família e envelheceu longe da fama e do medo, como se tivesse vivido duas vidas completamente distintas.

Apenas no fim da existência o silêncio começou a ruir. Em 2005, já idoso, ele e Durvinha conseguiram reencontrar o filho que haviam deixado no sertão, fechando uma ferida aberta desde os tempos da caatinga. A trajetória do casal, marcada por sangue, amor e fuga, foi registrada no livro Moreno e Durvalina: Sangue, Amor e Fuga no Cangaço, revelando ao público uma das histórias mais humanas e surpreendentes daquele período.
Moreno morreu em 2010, em Belo Horizonte, aos 100 anos de idade, tornando-se um dos últimos integrantes do bando original de Lampião a falecer. Seu enterro chamou atenção por um detalhe simbólico e raro na história do cangaço: fogos de artifício celebraram o fato de ele ter morrido de causas naturais, com corpo inteiro, e não decapitado, como aconteceu com tantos outros cangaceiros. Assim, o homem que sobreviveu às balas, à seca, à perseguição e ao esquecimento encerrou sua longa caminhada de forma quase inimaginável para alguém que viveu sob a lei implacável do sertão armado.











