Autor: Moyses Laredo

 

 

Chapter # 1

A Revolução Acreana, deixou marcas indeléveis e grandes heróis esquecidos em sua rica história. Quantos e quantas derramaram seus sangues, para a glória de dar essa terra aos seus filhos e ao Brasil. Nos idos de 1903 se inicia a revolta de uns tantos seringueiros, pela rica terra que tiravam de lá seus sustentos, que, ameaçada pelo domínio boliviano, tiveram que, ao seu modo e recursos escarço, lutar pela expulsão dos estrangeiros, que também reclamavam aquelas terras como suas. Essa revolta se espalhou como brasa no palheiral e se agigantou com o arrebatamento das populações de seringueiros vizinhos, que se recusaram a entregar “suas” terras aos estrangeiros, que a bem da verdade, por falta de uma cartografia confiável, não se sabia a quem de fato pertencia aquele esquecido pedaço de terras na parte setentrional do Brasil, mas ali, nas profundezas da floresta, sem auxílio de uma ordem precisa de demarcação, não se tinha qualquer elemento que indicasse os limites do País, as coisas ficaram esquecidas ao longo do século XIX, só avivantadas com a desesperada procura pela borracha fina acreana de excelente qualidade, já nos primórdios do século XX.

 

Desse conflito, a essa altura ainda doméstico, sem participação do resto do País, despertou interesse do Amazonas para as riquezas geradas pela borracha acreana, o governo do Estado do Amazonas se propôs a ajudar os seringueiros revoltosos que lutavam por seus direitos, fornecendo alimento, armas e munições, em troca dos carregamentos de pélas de borracha que fazia a riqueza dos comerciantes do Amazonas. Puro interesse econômico. Não à toa que seus filhos estudavam todos na Europa, como também, os mais grã-finos chegavam ao ponto, de mandar lavar suas roupas, na Europa também. Enquanto isso, o conflito ganhava status de guerra, quando a Bolívia, resolveu pegar pesado em defesa daquelas terras que acreditavam ser deles. Se estabeleceram no hoje município de Porto Acre, batizados por eles de Puorto Alonso, onde se entrincheiraram fortemente, criando uma cidadela, inclusive com canhões para impedir o avanço dos vapores brasileiros, alguns barcos de pequeno porte conseguiam burlar a vigilância, mesmo assim, o fluxo à noite, era constante e desafiador, os bolivianos decidiram, estender uma grossa corrente de aço, de uma margem a outra, pouco submersa, para impedir que os barcos brasileiros definitivamente fossem impedidos de navegar por ali. Fato semelhante havia acontecido na batalha da Passagem de Humaitá, uma operação naval durante a Guerra do Paraguai, em que uma força de seis monitores encouraçados brasileiros, forçou a passagem, sob fogo da artilharia paraguaia da fortaleza, de Humaitá no Paraguai, que impediam também a passagem da esquadra brasileira para chegar à Assunção atual capital do Paraguai.

 

De fato, essa solução requereu muito trabalho para os bolivianos, visto que as árvores das margens eram de pouco calibre (grossura) e facilmente poderiam ser serradas, e as mais grossas, distavam muito das margens, o que inviabilizava estender a corrente por grandes distâncias. Os engenheiros militares bolivianos, optaram por fundir estacas de concreto, (moldadas in loco) próximo às duas margens (opostas) ao mesmo tempo que as estacas eram concretadas já se inseria as extremidades da corrente, com argolas soldadas para que não fosse necessário o uso de “candados” (cadeados), a corrente parecia que nascia do chão, de modo a desestimular qualquer ação sorrateira dos revolucionários que ensejasse destravar a corrente, dizem os historiadores que a tal corrente, era do tipo que um elo só, pesava mais de um quilo. A estratégia boliviana impediu de passar vários vapores de maior calado, muitos foram a pique tentando. Essa ação, por parte do exército bolivianos complicou sobremaneira a estratégia de defesa dos revolucionários seringueiros, que a essa altura, já dependiam enormemente desses abastecimentos. O Rio Acre era o único meio de se chegar lá, a não ser que se quisesse passar cinco ou seis meses caminhando na mata, com pequenas cargas no lombo dos animais.

 

Os bolivianos comandados pelo Coronel Azcui, que depois deixou um relato sobre a batalha, também estava contente com sua estratégia, achava que em breve sufocaria os revolucionários, inclusive por esse feito, foi chamado à Bolívia, para receber honrarias do presidente Aniceto Arce. No entanto, nesse interim, algumas tentativas de cortar a dita corrente foi frustrada, os soldados brasileiros, não contavam com nenhuma defesa, eram alvos fáceis dos atiradores bolivianos que de bem entrincheirados, não erravam um deles. Muitos acreanos pereceram na tentativa, seus corpos desciam o rio de bubuia (boiar) sem vida, todos morreram tentando serrar os grossos elos da corrente, na escuridão da noite, em meio as águas turvadas com a forte correnteza do Rio Acre, eles ainda tinham que segurar o fôlego durante as operações de serragem. Homens de coragem inigualável. Usavam um arco de serra, também conhecido como segueta, para a realização das várias tentativas frustradas. Quem substituía o soldado caído, não continuava a serrar de onde ele havia parado e assim, começava tudo de novo, o moral estava baixo, acreditavam que nunca iriam conseguir romper aquela forte corrente de aço.

 

Nesse ponto da batalha, incorporou-se ao comando de Plácido de Castro, o italiano Ernesto Aosta, engajado às forças de Plácido, que por sua sagacidade logrou o sucesso desejável, ele, um estrategista, montou a tática de serrar a corrente, para isso, criou e treinou uma equipe de mergulhadores, aliás, todos aqueles que se diziam mergulhar, que se reversavam na missão a cada uma hora, munidos de serras metálicas, eles estavam amarrados à cordas pela cintura, onde após seu turno eram puxados de volta, pois Aosta, sabia estarem exaustos com os esforços de nadar, mergulhar e serrar. Como proteção contra os disparos bolivianos que ceifaram muitos brasileiros, utilizaram como anteparo, canoas cheias de areia, para amortecer as balas que zuniam por sobre os bravos combatentes, sem, contudo, atingi-los. As canoas de casco de itaúba, eram ancoradas na própria corrente de aço, e se mantinham paradas protegendo os mergulhadores. À princípio, os bolivianos não entenderam, ficavam gastando munição e não atingiam ninguém, embora fosse noite, mas não viram mais os corpos boiando. A estratégia do comando de Aosta deu tão certo, que logo ao amanhecer o elo da malfadada corrente, foi finalmente partido, afundando nas margens, o que levantou os ânimo da tropa, e finalmente, o vapor ‘Independência’ principal navio carregado de mantimentos e artefatos de guerra, conseguiu passar incólume, porque avisadamente, tinham reforçado seu casco metálicos com placas de aço sobre a linha d’água, formando um escudo, onde os tiros eram rechaçados e assim puderam passar, mesmo sob forte tiroteio, alguns com pequenas avarias.

 

Nota do autor: Essa parte da história acreana que trata especificamente sobre a corrente que os bolivianos armaram para impedir a passagens dos vapores brasileiros, nunca fora contada especificamente, tanto Plácido de Castro quanto o Coronel Azcui, passaram ao largo, preferiram descrever em suas anotações de guerra, outros acontecimentos, portanto, as cenas foram recriadas pelo autor sem nenhum fundamento histórico, tudo no intuito de contar a parte da história não contada. Alguns dados foram adaptados de artigo publicado no Jornal “O Acre”, em dezembro de 1997. “