Depois de muito pensar e já adiantado em idade, tenho 95 anos, mas conservo a lucidez pois algo que aconteceu quando eu era seringueiro, me assombra até hoje, resolvi contar o meu segredo. Meu nome é Raimundo Anastácio, moro em Novo Airão, mas sou natural de Várzea Alegre, no Ceará.
Muito jovem fui morar onde hoje chamam de Airão Velho, um povoado abandonado, que na época era conhecido por Freguesia, cujos moradores foram expulsos pelas formigas, segundo as história oficial, mas quem morou lá, sabe que quem expulsou toda uma população, foi o Curipira.
Sempre saí para sangrar seringueira e nunca havia visto nada de anormal, na verdade nem acreditava, até aquele fatídico setembro. Lembro como se fosse hoje: certo dia quando fazia uma trilha para apresentar uma samaúma para um amigo estrangeiro, eu me encontrei com o Curupira. Era a primeira vez que fazia aquela trilha, e ao entrar na floresta, comecei a brincar com o turista, zombando do Curupira, como se ele não existisse.
Como estava acostumado a andar no mato, fui na frente da turma (ele e mais dois curumins, filhos de um compadre meu), me distanciando para ouvir melhor os sons da floresta. Estava com sede e vi uma sumaúma e enterrei o facão nela, para beber a água que começava a jorrar. Foi quando entrei numa espécie de transe. Era como se tivesse dormido, meus amigos desapareceram, não ouvia mais a voz deles, nem o som dos pássaros.
Olhei para o lado esquerdo da trilha e no meio do mato vi uma mulher, nua e com o corpo pintado de grafismos indígenas. Ela ficava me olhando, sem falar nada, era como se estivesse me chamando, senti vontade de ir. Nesse momento começou a ventar muito e a mulher se transformou em várias, que ficavam correndo ao meu redor. Senti vontade de tirar minha roupa e sair correndo com ela.
Quando estava quase indo embora com as mulheres pintadas, ouvi um dos curumins chamando pelo meu nome. Foi quando saí do transe e me reuni novamente com o grupo. Não comentei nada sobre o que tinha acontecido, mas quando cheguei à área da samaúma, desabei a chorar. Sentia uma conexão muito forte.Chegando em casa, não contei nada para ninguém e guardei esse segredo até hoje.











