É uma modalidade de pescaria muito concorrida, ganha adeptos a cada programa de tv, vende de tudo, até coisas fora dos equipamentos de pesca, tais como: triciclos, barracas, lanternas, cobertores, e por aí vai. O comércio flui sem atropelos, todos na cadeia negocial se sentem muitíssimo bem remunerados e cada vez ficam mais ricos, mas, …e os peixes, como se sentem? Alguém já parou para analisar a situação de um peixe que lutou ferozmente, com um pedaço de arame de aço enterrado no céu da boca?… a dor deve ser lacerante e aguda, enquanto que, o pescador, por sua vez, continua puxando, aumentando a pressão no anzol e enterrando mais profundamente? Não importa seja o tamanho do peixe que for, usa dos seus parcos recursos para não ser puxado, e olhe, que ele não tem em que se segurar, é só com a força das barbatanas, não tem como lutar contra as linhas de nylon, que resistem a cinco vezes o peso deles.

O tucunaré, peixe oriundo dos rios da Amazônia, quando fisgado, se lança desesperado para as raízes dos troncos, e se enrosca nelas, os pescadores não conseguem retirá-lo dali, a não ser, quando o caboco resolve mergulhar para buscá-lo, se não, ele não sai dali e morre, mas morre como herói rodeados dos seus. O mais interessante é que, os grandes tucunarés mantêm guarda em suas crias, o casal se reversa em busca de alimentos, quando um sai, o outro permanece de guarda. O pescador que conhece, pega um e volta para pegar o outro, é certeza que com isso, destrói uma grande reprodução deles, porque os filhotes são sumariamente devorados. Quando o peixe é fisgado e a sorte não lhe sorrir, no caso da linha partir, e ele não está por perto da margem, é apanhado, fotografado, posto no colo, até beijado e… solto, solto bem longe de onde fora pego, ou seja, distante do seu habitat, talvez, em territórios hostis, mas, quem vai se importar com isso, o que vale é continuar a diversão. Imagine você ser expulso do ônibus, numa rua deserta, num lugar desconhecido, cheio de marginais à sua espera, ávidos para lhe assaltar, que chance você terá de sair ileso?…assim mesmo deve se sentir o peixe que é solto, principalmente se tratando dos pequenos, longe da segurança de “casa”, fora do seu abrigo natural, das raízes submersas, e das imensas vitórias-régias, tem pouquíssima chance de sobreviver.

Tão logo são jogados n’água, por quem os pescou, que acham que a água é a mesma para os peixes; eles ainda grogues, sem noção, nadam lentamente, e assim que submergem, são sugados por um outro predador maior, que o está espreitando, que ao perceber suas reações anormais, entendem que é fraqueza e avançam com fúria, e o pobre, que foi poupado por ter suas medidas abaixo na tabela estipuladas para a pesca, é engolido sem a mínima chance, mas, o pessoal que o pescou, nem viu isso, acharam lindo, se parabenizaram, quem o fisgou guardou as fotos para mostrar em casa, no escritório, enquanto que o peixe, já nem mais existe. Há outros, que depois de soltos e extraído o anzol com alicate, na maior brutalidade, arrancam até pequenas lascas da estrutura da boca. A boca dos peixes é a parte anterior, e as câmaras branquiais ficam mais ao fundo, são cobertas por placas ósseas móveis, chamados de opérculos. Graças aos movimentos sincronizados de abertura e fechamento da boca e dos opérculos, o peixe estabelece um contínuo fluxo de água, entrando pela boca e saindo pela abertura lateral do opérculo (Portal BioMania) é um mecanismo delicado. Quando são devolvidos às águas, todo estropiados, por cima, ainda caem “ouvindo” a carinhosa recomendação dos seus algozes “- Volte pra vida peixinho”, mas, ao entrarem n’água, nadam com as forças que ainda lhe restam, vão direto para as profundezas, para se abrigarem nas vegetações do leito do rio, sentindo aquela dor terrível no céu da boca, ou até, com as guelras sangrando, prato feito para as piranhas. Quando, por fim escapam, quanto tempo leva para eles voltarem a se alimentar?…se pelo menos passassem um spray contra as feridas. Os peixes não respiram por pulmões, é sabido por todos, sua resistência está na capacidade de reter o oxigênio livre existente na água através de suas guelras. O projeto das guelras é tão perfeito, que todos os peixes que respiram oxigênio livre, as tem, servem para irrigar o sangue. Com o esforço que executam numa luta, fica em débito de oxigênio e se esvai, perde a resistência e se entrega. Os estudos indicam que demora um certo tempo, variando de animal para animal, para o restabelecimento de suas capacidades normais de defesa. Se fosse nos humanos, certamente ali seria uma afta das enormes, mas não, deixam-nos sofrerem com suas feridas abertas, pois já lhes deram o prazer que buscavam.

A pior situação é a dos peixes de tanques, tipo pesque e pague, onde todos sofrem diariamente com isso, são fisgados inúmeras vezes ao dia em troca de comida que são racionadas propositalmente, justamente para que fiquem esfomeados e corram para os anzóis ao menor ruído n’água, andam com as bocas laceradas de feridas mal cicatrizadas, é um sofrimento sem tamanho, mas, os peixes não se queixam, não tem como, levam as suas vidas assim mesmo, acham que é seus destinos, mas em verdade, não era pra ser assim, foram criados para servirem de alimentos aos humanos e nunca para servirem de diversão em troca dos seus sofrimentos.

Essa é a modalidade de pesca esportiva, a tal de pesque e solte, grande insanidade, desconhecem que as espécies tendem a evoluir como explica com clareza a Teoria da Evolução de Charles Darwin. Uma das pedras angulares da ciência moderna, a Teoria da Evolução, estabelece que as espécies mudam gradativamente através da seleção natural, um dia, quem sabe, não será mais possível pescar com anzóis, os peixes ficarão velhacos e fugirão às léguas ao verem aquele brilho característicos dos anzóis na água. Alguns cabôcos criados na Amazônia, já perceberam isso, procuram esconder a ponta do anzol, no meio da isca, fazem isso porque já notaram que afugenta os peixes, quando ficam à amostra. Algumas localidades já não se conseguem fisgar nenhum, com iscas artificiais. Dizem que já há escarces dos peixes de maior porte, os mais experientes, já estão aprendendo a reconhecer um anzol a vista. Novos tipos de iscas artificiais estão sendo desenvolvidas como as que nadam e exalam um odor característico, tudo no intuito de enganá-los, mas esquecem que, o inconsciente coletivo deles também trabalha. A definição de inconsciente coletivo, diz que são as imagens primordiais que estão ligadas ao primeiro nível da psique. “Essas imagens nos são repassadas por nossos predecessores, não apenas os humanos vindos antes de nós, mas também os animais irracionais” (Carl Jung).

Por: Moyses Laredo