A motocicleta ainda é um dos principais causadores de mortes no trânsito. Até setembro do ano passado foram 81 óbitos sobre duas rodas contra 102 este ano, um aumento de 25% no Amazonas. Esse aumento começou a se acentuar no mês de maio, quando a procura por serviços delivery cresceu em Manaus. Contudo, a maioria das pessoas que passa a exercer essa atividade não possui o curso de capacitação para atuar no trabalho. Só 1% dos condutores habilitados para pilotar moto possuem o curso de motofretista, exigido pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran) para quem trabalha com entregas sobre duas rodas. Mas apenas colocar a culpa no lado mais fraco da moeda certamente não é a solução. As empresas precisam assumir suas responsabilidades.

Em julho, os entregadores de Delivery protestaram contra as péssimas condições de trabalho. Precisam entregar o maior número de pedidos possível, ganham mal e além de arriscar a vida dos outros, também correm risco de morte. Enquanto algumas empresas forneceram equipamentos e insumos como álcool em gel, outras ainda não tomaram medidas. Eles pedem também um seguro saúde em caso de contaminação ou de acidentes. Publicações nas redes sociais de grupos de entregadores registraram paralisações marcadas em pelo menos seis unidades da Federação: São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Espírito Santo e Paraná. Em Manaus, basta andar pelas ruas para vê-los pra lá e pra cá, em cima de calçadas, passado por onde não tem espaço, na pressa pelo lucro dos empresários e uma pequena esmola que sobra no fim do dia. Haja oração para terminar o dia vivo e sem matar ninguém.

 

POUCO LUCRO

Um estudo da Universidade Federal do Paraná, entrevistou 298 motoboys e verificou que mais de 57% têm jornada de trabalho superior a nove horas diárias. Apesar de o expediente já ser longo, aumentou ainda mais durante a crise sanitária de covid-19, para 62% deles. Além disso, a maioria (78,1%) descansa pouco ou quase nada, já que trabalha seis ou sete dias por semana. Apesar de batalhar bastante, 58,9% tiveram renda reduzida, com a pandemia.  Há três leis em vigor que dão respaldo para a categoria:  Lei nº 12.009, que regulamenta as atividades de motofrete; a Lei nº 12.997, que classifica como perigosas as atividades de trabalhadores que utilizam motocicletas; e a Lei nº 12.436/2011, que proíbe empregadores de estimular competição entre motociclistas, com o objetivo de elevar a quantidade de entregas. Para o presidente interino do sindicato, Gerson Cunha, a mesa de negociação marcada para esta terça-feira deverá servir para que a legislação existente seja, de fato, cumprida.

EMPRESAS CONTESTAM 

O Ifood informa que distribui EPIs aos entregadores inscritos na plataforma desde abril e, atualmente, toda a rota do aplicativo tem um ganho mínimo de R$ 5, mas que “a média é muito superior, ficando em cerca de R$ 9”. Sobre os seguros, a empresa informa que já oferece gratuitamente o seguro de vida e o de acidentes e que “os parceiros”(como a empresa se refere aos trabalhadores) podem contratar seguros com desconto, desde que seja com uma seguradora associada.

Sobre o bloqueio de trabalhadores do aplicativo, o Ifood esclarece que “tem regras de desativação claras e um processo de análise de revisões cuja palavra final é dada por pessoas, e não por robôs”, e que “não tem nenhum sistema de pontuação dos entregadores, nem usa estratégias de gamificação”.

A Rappi informa que, desde o início da pandemia, também tem adotado protocolos de segurança para os entregadores parceiros e que mapeia os pontos onde há maior demanda pelos serviços, para ajudá-los a ter acesso a melhores oportunidades. Segundo a empresa, “o valor do frete varia de acordo com o clima, dia da semana, horário, zona da entrega, distância percorrida e complexidade do pedido” e “quase metade dos entregadores parceiros passa menos de 1 hora por dia conectada ao aplicativo”.

BOLSONARO VETOU ARTIGO PERIGOSO

O número de mortes no trânsito no Brasil diminuiu 7% em 2019, confirmando a tendência de queda anual que se mantém desde 2015. No total, 30.371 pessoas perderam a vida nas ruas e estradas brasileiras no ano passado, em comparação com os 32.655 mortos em 2018. Os dados do Ministério da Saúde são preliminares e podem aumentar um pouco quando forem divulgados os números consolidados, mas ainda assim devem permanecer mais baixos do que em anos anteriores.

Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro vetou importante aconteceu no dispositivo que permitia, quando o fluxo estivesse lento ou parado, a passagem de motocicletas e motonetas entre os carros. Pela regra acrescentada por deputados e senadores, a velocidade das motos deveria ser compatível com a segurança de pedestres e os motociclistas não poderiam passar entre a faixa da direita e a calçada.

Bolsonaro alegou que a medida restringiria a mobilidade dos motociclistas, que é o diferencial desses veículos e que colabora na redução dos congestionamentos. Além disso, afirmou que haveria dificuldade em definir “fluxo lento”.