SEM POUPANÇA, TRABALHO E OXIGÊNIO: CRISE HUMANITÁRIA NO AMAZONAS
Para Dra. Márcia Castro, professora titular de Harvard, a situação do Amazonas neste cenário de irresponsabilidade política dos governantes, contribuindo diretamente para o avanço e domínio da nova variante da Covid-19 no Estado com disseminação por todo o Brasil, com registro até no Japão, é uma verdadeira “crise humanitária” trata-se de uma situação de emergência, em que a vida de um grande número de pessoas se encontra ameaçada pelas políticas genocidas.
Ademir Ramos (*)
O microbiologista Atila Iamarino, com mais de um milhão de seguidores faz um eficiente trabalho nas redes sociais quanto à popularização do conhecimento científico pertinente à natureza e cultura da Covid-19 no Brasil e no mundo.
Para qualificar sua comunicação convidou a participar de suas lives, a professora pesquisadora Márcia Castro, PhD em demografia, com vasta experiência no Brasil e no mundo sobre pesquisa de campo focada nos estudos de identificação de riscos sociais, biológicos e ambientais associados a doenças transmitidas por vetores nos trópicos, inserindo em suas análises estas variantes em questão para explicar a dinâmica da Covid-19 no território nacional e, particularmente no Amazonas, sem poupança, trabalho e oxigênio.
Marcia Castro, professora titular do Global Health and Population Department da Harvard T.H. Chan School of Public Health (HSPH), conhece a Amazônia, onde trabalhou em pesquisa de campo sobre a malária, assim como também no continente africano e outros países.
A professora titular de Harvard afirma que medicina e saúde pública requer estudo de campo e pesquisa interdisciplinar, por esta razão questiona diretamente a aplicabilidade da quarentena como medida transplantada da Europa para o Brasil desconsiderando a desigualdade e a formação social, suas relações de produção, o acesso à saúde e o racismo estrutural, bem como também a conjuntura brasileira “marcada pela ignorância, estupidez e egoísmo” formatada na política governamental como expressão do neoliberalismo econômico articulado ideologicamente com as religiões neopentecostais.
Quanto ao cenário do Amazonas e da Amazônia como um todo é importante que chamemos atenção para o nosso baixo índice de Indicadores de Desenvolvimento Humano (IDH). A título de exemplo a professora não se cansa de denunciar que no Amazonas 43% de nossa população não tem acesso à água – estrutura sanitária – e no Amapá, o índice é de 65%, significa dizer que o lavar as mãos com sabão enquanto regra de prevenção por aqui é no mínimo escasso e duvidoso isto sem falar no déficit escolar, na qualidade de nossa educação e no trabalho informal.
No Amazonas, a concentração de riqueza é perversa, a classe média em sua maioria resulta da função do Estado. Com a pandemia afetando a economia como um todo a pauperização da classe média é visível tanto quanto dos que vivem em extrema pobreza. A Zona Franca de Manaus citada pela pesquisadora como Polo de Produção com articulação internacional é fator a ser examinado, em se tratando da transmissão do vírus, considerando sua extensão quanto à mobilidade dos seus agentes no mercado.
Os pesquisadores da área de Saúde Pública louvam a iniciativa da FIOCRUZ na Amazônia, particularmente em Manaus, realizando pesquisa de genotipagem da Covid-19 com pouco investimento. No entanto, o descaso dos governantes é escandaloso pela falta de teste e de qualquer planejamento básico para o enfrentamento da pandemia chegando ao ponto de desmontar um hospital de campanha achando desta feita que teria vencido a Covid-19, quando na verdade o vírus estava migrando para a periferia e o interior do Estado no formato de nova variante mais agressiva e letal.
No Amazonas somente em Manaus temos Unidade de Terapia Intensiva (UTI) nos hospitais de referência, no interior do Estado temos Unidade de Cuidados Intermediários (UCI). Mas, com a saturação da rede em Manaus, o aceleramento do processo de transmissibilidade da nova variante da Covid-19, a falta de oxigênio hospitalar em todo o Estado e em contrapartida o ministério da saúde em vez de prover com oxigênio a Rede oficializou o “tratamento prévio” desovando a cloroquina por todo o Estado, com se fez no início do século 19 contra a influenza hespanhola, assim definida à época.
Nesta circunstancia, os profissionais de saúde, segundo a Dra. Márcia Castro, agem como “brigada de incêndio” tentando salvar uma vida aqui outra acolá, conseguindo tão somente se estressar e adoecer em processo.
Para ela, a situação do Amazonas neste cenário de irresponsabilidade política dos governantes contribuindo diretamente para o avanço e domínio da nova variante da Covid-19 no Estado com disseminação por todo o Brasil, com registro até no Japão, é uma verdadeira “crise humanitária” trata-se de uma situação de emergência, em que a vida de um grande número de pessoas se encontra ameaçada a exigir recursos extraordinários de ajuda humanitária para evitar uma catástrofe ou pelo menos limitar as suas consequências.
A “crise humanitária”, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) é uma situação catastrófica. Essa ocorrência afeta setores básicos da sociedade e resulta na reunião de forças internas e externas para a reintegração e manutenção da vida e da paz social responsabilizando-se os genocidas junto à Corte de Justiça nacional e internacional.
(*) É professor, antropólogo, coordenador do projeto jaraqui e do NCPAM do Dpto. de Ciências Sociais da UFAM.