Autor: Moyses Laredo

Uma homenagem póstuma, ao grande homem que com uma vida profícua, dedicada à arquitetura Amazônica, e um legado extraordinário de boa conduta profissional, e humor apuradíssimo. Deixou para a prosperidade, lindas obras no Amazonas, que hoje, ainda nos encantam. Seguiu para a eternidade, aos 90 anos no último dia 10/12/202.

No início da década de 70 seu escritório localizava-se na Av. Joaquim Nabuco esquina com a Rua Dez de Julho, chamava-se “PONTO ARQUITETURA E CONSTRUÇÃO LTDA”. Fui indicado pelo meu professor de arquitetura, para trabalhar com ele. No dia, cheguei cedo, entrei e perguntei aos desenhistas, pelo Dr. Severiano, me apontaram subir a escada, na primeira sala, o encontrei em penumbra, lá estava o grande arquiteto Severiano Mario de Magalhães Porto, debruçado numa prancheta de desenho, com um foco de uma luminária pendente do teto, direto em cima da prancheta, rabiscava com um lápis de grosso grafite F, de dureza média, num desenho em papel manteiga, com traços firmes e retilíneos, como se feitos por uma régua, ali estava nascendo alguma obra de arte. Ele tinha os óculos abaixado, quase na ponta do nariz, levantou o olhar, sem mover a cabeça e disse: – “Pois não?”. Eu me apresentei dizendo que era o estudante que o prof. Hugo Reis havia me encaminhado. Ele me disse, – “Ah! Sim! … e quanto você quer ganhar?” Fiquei mudo, parado por uns instantes, não sabia o que lhe responder, não esperava ser “contratado” assim tão rápido, então respondi-lhe – “Nada!”. Agora, foi ele que ficou sem jeito, primeiro levantou uma sobrancelha, depois revirou os olhos para me enquadrar, acho que não queria perder o fio da imaginação que estava tendo, depois de um tempo, me respondeu… – “Nada?” Disse-lhe – “Sim, nada! E completei, – “Eu ainda não sei nada”! Como resposta desse diálogo insólito, ele disse, – “Então tá! Como é seu nome?” depois falou, comece na segunda”. Agradeci-lhe, e sai meio assustado, desci as escadas e quando já na rua, me invadiu uma sensação de euforia com o meu primeiro emprego na área que eu sempre quiz, para depois vir o silêncio, quando uma voz dentro de mim, dizia “mais porque toda essa alegria? você não vai ganhar porra nenhuma!” – É mesmo! Mais já é um começo, vou aprender bastante, e ainda, numa área que gosto de fazer que é desenhar, assim no futuro vou poder ganhar mais, pensei em seguida, o que me acalentou.

De fato, fiquei uns três meses desenhando, aprimorando o que havia aprendido no SENAI e na cadeira de arquitetura com o meu professor de arquitetura, que mais tarde, quando já formado em engenharia, veio a ser meu colega no BNH. No escritório do Dr. Severiano (assim todos o chamavam) eu me apresentava religiosamente todos os dias e nos mesmos horários para trabalhar, na verdade, o meu trabalho era refazer plantas antigas já desgastadas com o tempo, consistia em colocar por cima do desenho velho, um papel vegetal novo e copiar todas as linhas e letras até que o desenho ficasse perfeitamente igualzinho ao outro, depois de conferido por um desenhista mais experiente, o desenho antigo era destruído. Parecia simples, mais nesta época ainda se usava o tira-linhas, e eu não tinha a menor experiência com esse material de desenho, era uma espécie de caneta fininha que tinha na extremidade duas lâminas sobrepostas, afinadas nas pontas, em forma de lanças que se prendiam num encaixe, fazendo a ligação da peça metálica ao cabo da canetinha, eram reguladas por meio de um parafuso no centro das lâminas, que as atravessava, de modo que, com o arrocho do parafuso, ou se afastavam ou a se juntavam, assim, regulava a espessura da linha do traço, que se desejava obter. No espaço entre as duas lâminas, despejava-se, com um conta-gotas, uma única gotinha de nanquim, era uma operação muito delicadíssima, a gotinha muitas vezes pingava fora, melava a mão, o chão, a prancheta, o desenho, a roupa etc. Depois de posicionada no espaço certo, a gotinha se mantinha entre as duas lâminas pela tensão superficial. Neste ponto era ainda necessário fazer-se o ajuste da grossura da linha que se desejava iniciar o desenho.
Ao começar a desenhar, novos cuidados tinham que serem seguidos, a mão e o braço do desenhista, não podiam estar suados, a posição do tira-linhas no esquadro tinha que ser totalmente ortogonal, de modo a manter um milimétrico afastamento da ponta do tira-linhas entre o esquadro e o papel, era comum errar essa marcação e o que se via, era a gotinha escorrer suavemente como que sugada, em diretamente ao papel vegetal, formando uma mancha enorme e que normalmente fazia se perder todo o desenho. Depois, com o passar dos tempos adquirindo mais habilidade, eu já conseguia “raspar” a manchinha com uma Gilette bem amoladinha até desenvolvi a minha própria técnica usando a raspas finas de grafite sobre o resultado da raspagem da Gilette a fim de deixar o local mais alisado sem as asperezas das raspagens, também o cuidado era não colocar muito grafite para não escurecer o ponto, em seguida era só recomeçar o trabalho daquele ponto em diante, essa operação gastava cerca de uma hora aproximadamente, dependendo do estrago que se fizera, por conta disso, muitas vezes eu trocava o tempo do almoço pelas raspagens nas plantas, fiquei até conhecido entre os colegas desenhistas como o “giletinha de ouro”.

Depois de três meses aproximadamente, o Dr. Severiano vendo que o meu trabalho começava a aparecer, porque os desenhos eram assinados pelos seus respectivos desenhistas, um dia, me chamou e disse: – agora, acabou a brincadeira, você vai receber NR$ 100,00 por mês. Aquilo era muito para mim, para quem não ganhava nada e tinha quase acabado com as solas do sapato para ir trabalhar. Imagine, sair de casa, na Rua Visconde de Mauá, ir a pé para Ramos Ferreira (o escritório havia mudado) quase esquina com a Getúlio Vargas. Depois do trabalho, às 17:00h, caminhava para a ETFA no final da Sete de Setembro, próximo à terceira ponte de ferro, para depois, no final das aulas, retornar para a casa no começo da Sete de Setembro, era uma maratona longa e cansativa, não havia sapato que durasse muito tempo. Na novela Gabriela, o prof. Josué (Anderson di Rizzi) mostrava o furo na sola do seu sapato tapado com jornais, eu também usava esse artifício, só que com pedaços de papelão, porque eram mais resistentes.

O Dr. Severiano pela sua natureza espirituosa, gostava de tirar sarro com todos, uma vez, me deu um trabalho e disse, esse trabalho é para um amigo e eu não vou cobrar dele, acerte com ele e fique para você o que acertar, certo? Achei o máximo, o Dr. Severiano me dando trabalho particular para fazer no horário de expediente? Pois bem, o topógrafo de sua confiança chamava-se Schuster e era um cara muito minucioso e detalhista, o trabalho era simplesmente o levantamento topográfico planialtimétrico do Estádio de Futebol Vivaldo Lima, o “Vivaldão” como depois ficou conhecido. O trabalho era monstruoso de grande, com o comprimento aproximadamente duas pranchetas e meia de desenho, com mais de 5.000 números de quatro dígitos e mais as curvas de níveis da planta de altimetria, para serem escritos com normógrafo, coisa realmente complicada e demorada e de posição torturante, que deixava os músculos das costas ardendo, demais cansativo de fazer, até para um jovem como eu, que já possuía muita experiência.

Nessa altura dos acontecimentos já tínhamos mudado o nome para SEVERIANO MARIO PORTO ARQUITETOS ASSOCIADOS LTDA., estávamos na Rua Ramos Ferreira, quase esquina com a Av. Getúlio Vargas. Um belo dia, quando finalmente concluiria o trabalho, ao adentrar à sala, de longe vi o ocorrido, sobre o meu desenho, que havia uma enorme mancha de nanquim e um vidro virado por cima do desenho, dando a entender que o vidro de nanquim havia entornado e manchado todo o desenho, fiquei paralisado, com os olhos arregalados, perscrutando todos os detalhes daquela catástrofe. Naquele momento, não havia ninguém na sala, soltei um grande puta merda! Que de tão alto foi ouvido lá em baixo na sala do Dr. Severiano, ele gritou de volta: – “O que houve?” Eu disse: – “o Sr. já viu isso aqui?” – “Mais ver o quê?” – “Venha aqui em cima ver, por favor!” Ai, apareceu gente de todos os lados para ver a putaria que fizeram com o meu trabalho, só podia ser obra de um grande filha-da-puta invejoso eu dizia o tempo todo, perdi a compostura, enquanto ele me acalmava: – “Calma, calma!!” Foi então que ele viu a merda que fizeram, balançou a cabeça negativamente, concordando comigo, – É mesmo! que maldade”, olhei bem para cara dele e não vi nenhuma decepção ou raiva em seu rosto, e sim, um sorriso maroto disfarçado, com uma das pontas do bigodão, repuxada pra cima, igual aos tantos que eu já havia presenciado dele, era uma marca sua, quando fazia as estripulias com os outros colegas, a partir daí, fiquei mais calmo e entrei no clima da brincadeira para logo em seguida, procurei saber o que realmente aconteceu, tudo não passava de uma grande molecagem dele. O Dr. Severiano derramou nanquim num pedaço de papel vegetal qualquer, esperou secar, recortou tudo, inclusive as gotinhas que se espalharam, depois, lavaram bem o vidrinho de nanquim, secou e pregou com durex as manchas, arrumando tudo de modo artisticamente em cima do meu desenho com o durex dobrado como fazem as balconistas quando embrulham presentes sem aparecer o durex. Tudo para parecer uma mancha real, grande artista ele era e um extremo gozador.
Outra vez, estava eu escorado na prancheta conversando com uma grande e querida amiga, Maria Tereza, que ainda continuava desenhando, coisas que se fazia com frequência quando, alguém estava de zoeira. Nesse dia, me pus a conversar fiado, enquanto ela ia trabalhando. Peguei uma gilete, e comecei a cortar uma ponta de unha que me incomodava, quando inesperadamente, levei um pequeno golpe que começou a sangrar. Era costume a gente chupar o dedo, que o sangramento logo parava, o golpe não era nada preocupante, coisinha pouca, mesmo. Nesse momento, ela me viu e disse baixinho, chupa o dedo Laredo que o sangramento passa, eu não queria fazer isso, mas ela insistia, estava aflita, até que falou mais alto, CHUPA LAREDO, foi quando se ouviu, uma voz lá de baixo (sala do Dr. Severiano) era o próprio, falando pausadamente e bem alto: CHUPA LOGO, LAREDO! A colega, ficou muito envergonhada, mas, conhecia bem, ele e suas piadas e demos grandes risadas.

Teve outro caso dele também, muito astucioso e brincalhão, estávamos na época do vestibular e um dos auxiliares, chamado Joãozinho por ser baixinho, de cabeleira farta, trabalhava na administração estava concorrendo ao vestibular para economia, ele tinha acabado de chegar de uma prova, ainda eufórico, contando como fora, quando repentinamente, começou a tocar no rádio da sala do Dr. Severiano, aquele gingue que anunciava o resultado do vestibular, – “Nossa!” disse o Joãozinho, “mais já?”. Muito espantado com a rapidez, mas, mesmo assim, desceu as escadas apressadamente e colou os ouvidos junto ao radinho ligado, para ouvir mais de perto o resultado, o locutor começou logo pelo curso dele e não demorou muito, para citá-lo, informou inclusive o seu nome e que ele havia passado com boas notas, cacête!, estava mesmo moderno esse vestibular, muito rápido, mas ele não desconfiou de nada, assim que ouviu o próprio nome, saiu em disparada escada à cima, pegou o seu fusquinha e cantando pneu, se mandando na maior disparada, em seguida, na mesma pisada, apareceu próprio Dr. Severiano espavorido, perguntando desesperadamente pelo Joãozinho, o pessoal lhe disse, que ele havia saído feito um azougue, o Dr. Severiano botou as mãos na cabeça. Foi então que todos perceberam que ele havia aprontado mais uma das dele, que coisa! O resultado fajuto do vestibular tinha sido montado por ele e tudo aquilo que o Joãozinho ouvira era falso e sem valor legal. O Dr. Severiano, fez tudo no seu gravador e o posicionou por trás do radinho mudo, porém aceso, rebobinou a fita do gravador e deixou ligado. Quando o pobre retornou mais tarde ninguém se aguentou de tanto rir, pois ao chegar à sua casa, com a maior alegria, quando dissera que havia passado no vestibular o pessoal o pelou na hora, raspando sua cabeça, era costume, deixando-o careca!! Depois que veio o resultado real, o Joãozinho não passou, nem chegou perto, mas, teve que retornar ao escritório cabisbaixo, e aí se viu que o pobre estava completamente careca e com a maior cara de besta, rimos por muito tempo, bastava alguém ver o Joãozinho, que logo se ouvia alguém se esbaldando de rir. Não sei como, o Dr. Severiano se saiu dessa.

O Dr. Severiano, homem de humor refinado, mas, também, um amante inconteste da Amazônia. Sempre que podia, nos convidava para uma pescaria, levava quem quisesse ir do escritório, passávamos fins de semanas maravilhosos, isso o integrava mais com sua equipe. Ele, um exímio tocador de escaleta, (teclado de sopro) acompanhado no violão pelo colega novato Néliton Marques de muita habilidade com o seu instrumento até hoje, e eu, no checo-checo, alguém se atracou com um velho pandeiro e pronto, tínhamos uma bandinha, que se chamava “Um monte de Bossa” batizada pelo próprio, como opção sugeriu também ainda outro nome, esse era pior, “Os filhos da Pauta”, ficamos com o primeiro nome, o segundo dava para confundir demais. A bandinha, era até certo ponto, bem afinada e rítmica, tornava a viagem mais alegre. À noite, depois do jantar, nos reuníamos na proa e saía grandes serestas, ou, ficávamos ouvindo os “Alôs”, mensagens passadas pelos ouvintes das rádios Am.

Numa ocasião enquanto ainda tocávamos com a nossa improvisada banda, tivemos que parar num porto próximo, para pernoite, isso sempre acontecia, não sei em que lugar estávamos, ao nos aproximar, vimos uma pequena multidão se aglomerando no beiradão nos acenando animadamente, achávamos normal, o povo ribeirinho é muito acolhedor e alegre. Ao atracar o barco, um senhor chegou muito risonho, nos cumprimentou, perguntando se éramos os músicos que esperavam para a festa, sem esquecer de apontar o dedo, para nos lembrar de reboque, que já estávamos atrasados. O baile estava marcado para as 5:00h da tarde, repetia, quando começamos a tentar explicar alguma coisa, o Dr. Severiano pulou na frente e interveio: – “Somos sim!” disse ele na maior cara de pau, – “Tivemos um probleminha no barco por isso nos atrasamos”. Foi uma alegria para todos os locais, os gritos de urra ecoou no barranco. Seguimos todos para o terreiro. O Dr. Severiano, conversou com os moradores e voltou para nos explicar que iríamos ter que tocar apenas algumas músicas, para aguardar os músicos contratados chegarem, ficamos animados, fazia parte do passeio. Acontece que os sacanas dos músicos contratados nunca deram as caras por lá, tivemos que tocar por quase três horas e meia seguidas, era uma coisa extremamente engraçada, ver o grande Severiano Porto, mestre ganhador de inúmeros prêmios nacional de arquitetura, com o seu bem cultivado bigode mesclado (preto e branco) de ponta enrolada para cima, cabelo de corte tipo Einstein, tocando sua escaleta alegremente para todos, ele, como já dito, um conhecedor profundo dos costumes ribeirinhos, deu o tom de todas as músicas, nunca repetia, nunca não, depois de umas tantas, começou a repetir tudo de novo, mas, procurou sempre tocá-las no ritmo agradável para dançar, e nós, como seus instrumentistas e de percussão, o acompanhávamos do jeito que desse. Foi muito hilariante, fizemos muitas amizades, às vezes, um de nós parava e até arriscava dançar também, ao final, nos serviram café com bolacha de motor. Como já se passava das 10:00h, o baile foi encerrado, quem manda a gente chegar atrasado! Terminou cedo a pedido do dono da festa, para o Dr. Severiano, a coisa ainda rolaria por muito mais tempo, ele não se cansava de tocar sua escaleta, estava radiantemente animado. O dono da festa, puxou o Dr. Severiano pro lado, queria lhe pagar, mas ainda deu para ouvir ele balançando as mãos, recusando o pagamento, dizendo que foi uma cortesia da banda, e do jeito que chegamos, saímos, voltamos para dormir no motor. A noite foi muito agradável com o converseiro sobre a festa.

Num outro desses passeios, o barco ainda em pleno movimento, no meio do rio, o comandante pediu ao Dr. Severiano que tomasse conta do timão um instantinho, enquanto ele ia dar uma olhadinha no motor que estava esquentando, achava que faltava óleo, ia lá completar. Enquanto o homem estava na casa de máquina, junto ao motor, cuidando do óleo, o Dr. Severiano aparece com o timão do barco na mão, e inocentemente perguntou – “O que faço com isso que se soltou?” … o pobre homem ficou alarmado quando viu o timão na sua mão dele e o barco navegando, sem ninguém no comando, só com uma ponta de parafuso no lugar do timão, imediatamente o comandante, largou tudo que estava fazendo e saiu feito um louco para aparafusar o timão no lugar, antes que o barco se chocasse nas barrancas, (embora estivesse longe) disse estar admirado porque nunca tinha acontecido isso nos seus mais 30 anos que navegava com nesse barco. Como sempre o chefe aprontando!!

Na volta tivemos que parar para pernoitar na embocadura do Rio Jatuarana na margem esquerda do Rio Amazonas, já bem pertinho de Manaus, lugar sem muito interesse para pesca, apenas por questão de cuidados com a navegação noturna, ali mesmo pernoitamos. Acontece que ninguém conseguia dormir com o ataque alucinante dos esfomeados carapanãs jatuaranenses, que nos viam com ânsia. Seus ataques se davam até por baixo da rede, perfuravam tudo, era um inferno para alguém conseguir dormir. O zunido nas orelhas era outro sinal de pânico para todos nós, porque depois do zunido a picada era certeira, eles não ficavam dando muitas voltas, baixavam o voo como verdadeiros kamikazes e se chocavam literalmente com o corpo de suas vítimas, o grito e um tapa se seguiam depois disso. O Dr. Severiano ocupou o único camarote existente, com justa razão, e nós, ficamos à mercê dos sanguinários carapanãs. Tomei uma decisão, não podia ficar ali, era impossível dormir, saí do barco já ancorado e comecei a desbravar o ambiente local, embora fosse noite, deu para vislumbrar uma pequena área plana de pouca vegetação depois da subida do barranco, onde o barco estava ancorado. Por coincidência avistei uma pedra plana que dava certinho para uma cama, o lugar era muito ventilado, achei adequado, era uma opção. Voltei para pegar minha rede e estender naquele local, aproveitei e avisei a todos os “doadores”, que a essa altura se debatiam com as picadas, do local o que achara. Foi uma corrida geral, por sinal, todos também encontraram suas pedras planas, engraçado! Parece que nos esperavam. Depois de todos arrumados e agasalhados, notamos que os carapanãs não nos seguiram, no local ventilava muito. Finalmente conseguimos ter um resto de noite sossegados. Pela manhã fui um dos primeiros a levantar e qual foi o meu espanto, a tal área plana, nada mais era do que o cemitério local da Comunidade do Jatuarana, e as ditas pedras, eram as lápides dos túmulos com suas cruzes, eu “dormir” com a extinta Sra. “Fulana de tal”, ainda bem que ela foi uma pessoa amada, dizia assim no seu epitáfio: “Com imensa saudade de seus filhos amados, marido e netos”. Dei um pulo quando li. Estiquei o olhar e vi os colegas ainda todos agasalhadinhos nos seus “túmulos”. Sai acordando um por um com o devido cuidado, deixei apenas um deles, o novato Néliton, sem despertá-lo. Saímos todos em silêncio voltamos para o barco contamos para o Dr. Severiano, que imediatamente deu ordem para o comandante acionar o motor, como se estivéssemos dando partida. O colega dorminhoco, ao ouvir o ronco do motor, acordou de surpresa e não viu ninguém, embora não o pudéssemos vê-lo por causa do barranco, mas ouvimos ainda dizer, – “bando de filhas da puta, me deixaram sozinho”, para depois, se dar conta onde estava e das suas queixas, mudou para gritos desesperado, foi uma gargalhada geral.