Meu nome é Cláudio, moro numa região rural de Manaus, no Ramal do Brasileirinho, e o que vou contar aconteceu comigo numa noite que eu preferia ter esquecido. Era mais ou menos umas dez e meia da noite. Eu tinha passado a tarde ajudando um vizinho a consertar uma cerca que tinha caído depois de uma chuva forte. Acabei ficando até mais tarde do que planejava e resolvi voltar sozinho pela estrada de terra que corta um pedaço de mata antes de chegar na minha propriedade.
Minha caminhonete era uma F-1000 velha, daquelas que fazem barulho em tudo quanto é canto, mas nunca me deixou na mão. A estrada tava seca, levantando poeira atrás do carro, e eu seguia devagar porque à noite sempre aparece algum animal atravessando. Lembro que o rádio nem funcionava direito. Então a única coisa que eu ouvia era o motor da caminhonete e os grilos cantando lá fora.
Depois de uns quinze minutos dirigindo, notei uma coisa estranha. Vi alguma coisa correndo do lado esquerdo da estrada. No começo achei que fosse um cachorro.Só que aquilo era grande demais. Muito grande. Reduzi a velocidade e tentei enxergar melhor. A criatura correu entre as árvores e desapareceu. Fiquei olhando pelo retrovisor algumas vezes, mas não vi mais nada. Continuei seguindo. Uns dois minutos depois ouvi um impacto forte atrás da caminhonete. BUM!
Cheguei a pensar que tivesse passado em algum buraco. Mas o som veio da carroceria. Olhei rapidamente pelo espelho. Não tinha nada. Meu coração já começou a acelerar. Apertei o pé no acelerador. Foi aí que ouvi outro barulho. Dessa vez parecia alguma coisa correndo atrás do veículo. E não era imaginação minha. Eu conseguia ouvir claramente. Passadas pesadas. Muito pesadas.Olhei pelo retrovisor novamente. E vi.
Até hoje me arrepio só de lembrar. Uma coisa enorme vinha correndo atrás da caminhonete. Parecia um lobo. Mas nenhum lobo daquele tamanho existe. Andava sobre duas pernas em alguns momentos e em outros usava as quatro. Tinha pelos escuros. Braços compridos. E os olhos refletiam a luz vermelha das lanternas traseiras. Quando percebi aquilo, pisei fundo.
A caminhonete começou a sacudir na estrada de terra. O velocímetro foi subindo. Sessenta. Setenta. Oitenta. Mesmo assim a criatura continuava atrás. Eu conseguia ver ela pelo retrovisor. Correndo. Sem demonstrar cansaço. Como se a velocidade não significasse nada. Numa curva mais aberta, consegui olhar pela janela. Ela estava praticamente ao lado da caminhonete. Correndo na mesma velocidade.
A cabeça era parecida com a de um lobo, mas o corpo era de alguma coisa muito mais estranha. Os dentes apareciam mesmo com a boca fechada. E o pior era o olhar. Parecia que ela sabia exatamente o que estava fazendo. Não era um animal agindo por instinto. Parecia inteligência. Foi nesse momento que entrei em desespero de verdade. Comecei a rezar enquanto dirigia. As mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar o volante. A criatura deu um salto. Ouvi as garras arranhando a lateral da carroceria. O barulho do metal sendo riscado foi horrível. Achei que ela fosse entrar pela janela. Acelerei ainda mais. A caminhonete pulava nos buracos. Eu quase perdi o controle duas vezes.
Quando finalmente avistei as primeiras casas da comunidade, a criatura diminuiu a velocidade. Olhei pelo espelho. Ela tinha parado no meio da estrada. Ficou parada olhando. Só olhando. As luzes da caminhonete iluminavam ela à distância. Então virou lentamente e entrou na mata. Desapareceu.
Cheguei em casa tremendo. Minha esposa perguntou o que tinha acontecido porque eu estava branco igual papel. Nem consegui explicar direito. Na manhã seguinte voltei ao local com dois vizinhos. Encontramos marcas estranhas na estrada. Pareciam pegadas de cachorro. Mas eram grandes demais. E na lateral da caminhonete havia quatro riscos profundos no metal. Os riscos continuam lá até hoje.
Muita gente pode dizer que era imaginação. Que eu estava cansado. Que vi alguma coisa e completei o resto na cabeça. Eu também gostaria de acreditar nisso. Mas até hoje, quando preciso passar naquela estrada depois que escurece, faço um caminho mais longo. Porque existe uma parte de mim que acredita que aquela coisa ainda está lá. Esperando alguém passar sozinho durante a noite.






