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O FUTURO, ESSE LUGAR MÍTICO

8 de junho de 2026
em Manchete
O FUTURO, ESSE LUGAR MÍTICO
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Na República dos Adiadores

O iconoclasta Maskate esfregou as lentes dos óculos, conferiu a data no calendário e quase pediu um café para dona Jesus. Aquela que diagrama, edita, cobra resultados, paga as contas e demite quem não demonstra foco, motivação e disciplina. A verdadeira Severina da Redação.

Depois de intermináveis debates, remendos, estudos, comissões, relatórios, audiências, negociações, guerras federativas, crises fiscais, acordos e desacordos, surgiu mais uma proposta iluminada: adiar a Reforma Tributária.

A arte de empurrar problemas

Sempre mais um ano. Sempre uma nova justificativa. Sempre uma nova promessa de que, desta vez, tudo ficará pronto no futuro.

Na República dos Adiadores, o futuro virou uma espécie de território mítico para onde governantes e burocratas empurram os problemas mais difíceis. Enquanto isso, as distorções permanecem, os custos aumentam e as soluções seguem presas ao calendário das conveniências.

O país do depois

Por isso, o adiamento já não surpreende. Pelo contrário, confirma uma tradição nacional: quando a decisão exige coragem, transfere-se a responsabilidade para amanhã.

E assim o país continua. Entre promessas, prorrogações e incertezas, a Reforma Tributária permanece no mesmo lugar de sempre: no futuro.

Vade retro, satanás, diria Dr. Antonio!!

A Constituição Federal virou o quê? Uma simples sugestão? Um bilhete escrito a lápis? Um documento provisório que pode ser colocado em espera sempre que a conveniência eleitoral recomendar cautela?

O mais curioso é que os defensores do adiamento apresentam a proposta como um gesto de responsabilidade. Segundo esse raciocínio, cumprir o que foi aprovado exige prudência. Adiar, por sua vez, demonstraria maturidade institucional.

A lógica do adiamento

No entanto, a lógica parece invertida. Afinal, depois de anos de debates, negociações e concessões, o país aprovou uma reforma justamente para enfrentar distorções históricas do sistema tributário.

Ainda assim, quando chega o momento de implementar as mudanças, ressurge a velha tentação de empurrar a decisão para mais adiante. Dessa forma, o cronograma perde força, a insegurança aumenta e o futuro volta a servir de depósito para questões que exigem definição no presente.

Responsabilidade para quem?

Para os investidores que precisam de segurança jurídica? Para as empresas que planejam investimentos de longo prazo? Para os trabalhadores que dependem da manutenção dos empregos? Ou para os candidatos que preferem atravessar o período eleitoral sem o desgaste de explicar mudanças necessárias?

O empresariado amazonense, com a FIEAM à frente, reagiu com preocupação. E não é difícil entender o motivo.

Insegurança e incerteza

Empresas tomam decisões com base em previsibilidade. Investidores avaliam cenários, calculam riscos e projetam resultados para os próximos anos. No entanto, quando o próprio cronograma de uma reforma constitucional entra em discussão, a insegurança cresce e a confiança diminui.

Além disso, cada adiamento amplia as dúvidas sobre as regras que irão vigorar no futuro. Como consequência, projetos podem ser revistos, investimentos podem ser postergados e oportunidades podem deixar de se concretizar.

Por isso, a reação do setor produtivo não surpreende. Afinal, quem gera empregos, produz riqueza e planeja o futuro precisa de estabilidade, e não de novas incertezas.

Segurança jurídica é essencial

A preocupação da Zona Franca

A Zona Franca de Manaus passou décadas lutando para transformar garantias políticas em garantias constitucionais. Depois de anos de debates e negociações, o texto aprovado consolidou salvaguardas, definiu regras e reduziu parte das incertezas que historicamente cercaram o modelo.

No entanto, surge agora a brilhante ideia de reabrir a caixa de ferramentas. E toda vez que determinados setores de Brasília decidem “aperfeiçoar” alguma questão relacionada à Amazônia, o amazonense prudente trata de verificar primeiro onde guardou a carteira.

A preocupação não é gratuita. Afinal, cada mudança reabre discussões que pareciam encerradas e reacende dúvidas que o texto constitucional buscou eliminar. Além disso, qualquer sinal de instabilidade afeta a confiança de investidores e empresas que dependem de regras claras para planejar o futuro.

Por isso, o debate ultrapassa a questão tributária. Na prática, ele envolve previsibilidade, segurança jurídica e credibilidade institucional. E esses fatores, uma vez colocados em dúvida, costumam custar caro para quem produz, investe e gera empregos na região.

A iconoclastia no Manual de Redação do Maskate até imagina a intenção

O país do “depois a gente vê”

Alguém levanta a mão e faz uma pergunta simples:

— Mas e a segurança jurídica?

A resposta vem rápida:

— Depois a gente vê.

Outra voz insiste:

— E os investimentos?

— Depois a gente vê.

— E as garantias constitucionais?

— Depois a gente vê.

— E a confiança do mercado?

— Depois a gente vê.

Assim funciona a engrenagem da postergação. As perguntas se acumulam, as dúvidas crescem e as respostas permanecem estacionadas no futuro. Enquanto isso, decisões que exigem clareza seguem à espera de um momento mais conveniente.

No entanto, o tempo não para para quem investe, produz ou gera empregos. Empresas precisam planejar. Investidores precisam calcular riscos. Trabalhadores precisam confiar na continuidade das oportunidades. Ainda assim, a solução oferecida parece ser sempre a mesma: adiar.

Dessa forma, o “depois a gente vê” deixa de ser apenas uma frase. Ele se transforma em método, estratégia e, por vezes, política pública. O problema é que a conta desse adiamento invariavelmente chega. E, quando chega, costuma ser mais cara do que teria sido no presente.

O problema é com o investidor

O custo da incerteza

O mercado costuma agir exatamente de forma contrária. Quando escuta a frase “depois a gente vê”, responde de maneira pragmática: “Então depois eu invisto”.

Eis o detalhe inconveniente dessa discussão: ela não envolve uma abstração momentânea nem um simples debate burocrático. Pelo contrário, envolve milhares de empregos, bilhões de reais em investimentos e a estabilidade de um modelo econômico que sustenta boa parte da atividade produtiva do Amazonas.

Além disso, a Zona Franca de Manaus não representa apenas um instrumento de desenvolvimento regional. Ela também contribui para a preservação de uma das maiores áreas contínuas de floresta tropical do planeta, ao concentrar atividades econômicas e reduzir pressões sobre a exploração predatória dos recursos naturais.

Por isso, cada sinal de insegurança produz efeitos que vão muito além das planilhas e dos gabinetes de Brasília. Na prática, a incerteza afeta decisões empresariais, altera planos de investimento e gera dúvidas sobre o futuro de um modelo que levou décadas para conquistar garantias constitucionais.

Enquanto alguns tratam o adiamento como uma medida de prudência, o setor produtivo enxerga o risco de reabrir questões que pareciam definitivamente resolvidas.

Entendeu, Zebedeu?

Quem vende o adiamento como vantagem nacional, na verdade, propõe estacionar o país no acostamento enquanto espera o resultado da próxima eleição.

A lógica é simples: em vez de enfrentar as decisões difíceis agora, transfere-se a responsabilidade para depois. Em vez de oferecer previsibilidade, cultiva-se a incerteza. Em vez de fortalecer a confiança, alimenta-se a dúvida.

O problema é que a economia não entra em modo de espera. Os investimentos seguem seu curso. As empresas tomam decisões. Os empregos dependem de planejamento. E o mercado, ao contrário dos discursos políticos, costuma reagir rapidamente aos sinais de insegurança.

Por isso, quando a política transforma a incerteza em estratégia eleitoral, alguém inevitavelmente paga a conta. E, quase sempre, esse alguém não participou da reunião, não assinou a proposta e nem ocupou lugar à mesa das negociações.

São os trabalhadores, os empreendedores e a sociedade que acabam arcando com o custo das decisões adiadas.

Entendeu, Zebedeu?

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