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A “Pisadeira” da noite, em São Sebastião do Uatumã

23 de julho de 2025
em Maskate Tablóide
A “Pisadeira” da noite, em São Sebastião do Uatumã
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A noite desceu sobre a cabana como um cobertor úmido. Lá fora o vento assobiava uma cantiga triste como um prenúncio do temporal que ia cair e temporal no mato é como uma Cachoeira. Eu estava com meu amigo Dinho, e tínhamos ido caçar antas nas matas de São Sebastião do Uatumã, em um barreiro que havia bem no centro da mata.Meu nome é Diocleciano Santos, mas meu apelido é “Deó”, desde menino. Eu e Dinho somos de Itapiranga mas fomos à São Sebastião levar uma balsa de areia e aproveitamos para caçar, pois conhecemos bem o local já que toda semana fazíamos viagem para lá.

Naquela noite, a janta tinha sido farta. Um cozido de jabá rebatido por doses de 51, coisa de peão, de quem labuta o dia todo no sol. Mas a minha avó, uma velha índia Dessana de olhar fundo e pele curtida pelo tempo, sempre dizia: “Nunca te deita de bucho cheio. É um convite pra Pisadeira”. Eu, na minha soberba de moço, ria por dentro. Bobagem de gente antiga, pensava. Coisa pra assustar criança. Mal sabia eu que naquela noite o riso ia se congelar na minha garganta. Deitei-me na cama velha de ferro, o colchão de palha afundando com meu peso, esperando a lua baixar para saírmos.

A barriga cheia me trazia um torpor gostoso e logo o sono me pegou de jeito. Não sei dizer quanto tempo se passou, se horas ou se um instante apenas. Mas quando meus olhos se abriram, a escuridão do quarto era a mesma, densa e quase palpável. Só que algo estava diferente. Um silêncio medonho tinha se instalado, tão profundo que parecia que o mundo inteiro tinha prendido a respiração. Foi quando tentei me mexer que o terror de verdade começou. Meus braços, minhas pernas, meu pescoço…tudo pregado na cama, como se eu fosse um bicho empalhado.

Um pavor gelado me percorreu a espinha. Eu estava desperto, ouvindo o meu próprio coração disparado, mas meu corpo era uma prisão de carne e osso. Forcei os músculos, uma, duas, três vezes. Nada. Era como gritar num sonho sem voz. E então, eu a vi. No canto do quarto, onde a escuridão era mais cerrada, uma forma começou a se delinear. Alta e magra, um esqueleto coberto por uma pele seca e encardida. Os cabelos, uma nuvem desgrenhada e suja, caíam sobre um rosto que nenhuma mãe daria à luz. Os olhos…ah, os olhos eram duas brasas vermelhas, faiscando com uma maldade que não era deste mundo.

O nariz, um gancho adunco sobre uma boca rasgada num sorriso perpétuo, exibindo dentes esverdeados e podres. Um arrepio violento me sacudiu por dentro, mas por fora, eu continuava uma estátua de pânico. A criatura se moveu. Não andou, flutuou. Um passo lento, sem som, e depois outro. Com seus dedos compridos e ossudos, parecendo gravetos secos com unhas amareladas e imensas, ela apontou para mim. E então veio a gargalhada. Não era um som humano. Era um chiado agudo, um rangido de porteira velha misturado com o estertor de um animal moribundo. Um som que arranhou minha alma.

Meu peito começou a doer. Era uma pressão, um peso que crescia a cada segundo. Olhei para baixo, paralisado de horror, e a vi subir na minha cama. Suas pernas curtas e finas se apoiaram no meu colchão, e então, com uma lentidão sádica, ela pisou sobre meu peito. A dor foi indescritível. Era como se uma pedra estivesse me esmagando. O ar fugiu dos meus pulmões num silvo mudo. Eu tentava gritar, pedir socorro, chamar pelo meu pai que dormia no quarto ao lado, mas minha boca só se abria num espasmo silencioso. A agonia era completa. Eu estava ali, consciente, vendo aquela coisa horrenda em cima de mim, sentindo suas unhas imundas roçando meu rosto enquanto ela se inclinava, o hálito fétido de túmulo me envolvendo.

O peso aumentava, e eu sentia minhas costelas estalando, meu coração fraquejando. O quarto começou a girar, as sombras dançando nas paredes como demônios zombeteiros. A face da Pisadeira se aproximou da minha, seus olhos de fogo queimando minha retina. Eu podia sentir a vida se esvaindo, a alma sendo sugada para fora do corpo por aquele sorriso macabro.Eu ia morrer. Ali, naquele casebre no meio do nada, esmagado por uma lenda que eu julgara ser só uma história de velho. O desespero me deu uma última força. Concentrei toda a minha vontade, toda a minha existência, num único ponto: o dedão do pé direito. Mexe, desgraçado, mexe! Era um esforço sobre-humano, uma peleia contra o invisível.

E ele se moveu. Um espasmo minúsculo, quase imperceptível. Mas foi o suficiente. Com um guincho de ódio, a criatura foi arremessada para trás, como se o encanto tivesse se quebrado. O peso sumiu do meu peito e o ar invadiu meus pulmões numa golfada dolorosa. Eu tossi, engasguei, e finalmente consegui gritar. Um grito rouco, de puro pavor. Meu amigo se levantou com a espingarda na mão, o rosto uma máscara de preocupação. Encontrou-me sentado na cama, tremendo como vara verde, o suor empapando minha roupa e os olhos esbugalhados fixos no canto vazio do quarto.

Nunca mais comi demais antes de dormir. E nunca mais duvidei das histórias dos mais velhos. Todas as noites, quando o vento canta sua melodia fantasmagórica, eu me deito de lado e rezo. Rezo para que a Pisadeira nunca mais encontre o caminho da minha direção, para que seu peso e sua gargalhada medonha permaneçam apenas na lembrança daquela noite em que minha alma quase foi levada. Porque agora eu sei: tem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia. E algumas delas, é melhor não cutucar.

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