Meu nome é José Paulo, moro em Manaus, no bairro de São Raimundo já há anos, mas o que passo a contar, aconteceu quando eu morava no Cuieiras, Comunidade próxima a Manaus, há cerca de 40 anos, mais ou menos. Eu tinha 11 anos quando vi aquilo, e não foi em nenhum circo. Foi no mato, onde eu fui catar uxí-coroa para a mamãe. Os meus primos tinham medo de sair após a boca da noite, mas eu não tinha. As pessoas falavam com a minha mãe para não me deixar ir para aquele lugar, mas eu ia sempre.
Um dia, enquanto estava abaixado, ouvi um barulho. Virei-me e olhei para o monte, perto de uma árvore, e vi uma senhora metade pessoa e metade cobra. Fiquei olhando para ela e não fugi. Estava a cerca de dois metros de mim. Tinha o cabelo preto, os olhos verdes e, da cintura para baixo, era uma cobra com cerca de três metros de comprimento. Depois vi-a ir embora para um buraco.Quando cheguei em casa começaram a acontecer coisas estranhas.
Na capoeira das galinhas da minha tia apareceu uma cobra enorme. Era impossível ela ter entrado ali, porque a capoeira era feita de tijolo, com paredes e chão fechados. Os meus primos foram buscar um machado para a matarem, mas quando chegaram ela já não estava lá. O mesmo aconteceu noutras casas.A minha tia e os habitantes da comunidade zangaram-se comigo e disseram para eu nunca mais voltar àquele lugar.
Mas eu voltei. E voltei a vê-la várias vezes. Nunca me fez mal. Eu só dizia que ia apanhar os uxís porque eram muito bons.Havia também uma casa pintada com cal branca e uma faixa azul. Tentei várias vezes olhar para dentro, mas as janelas tinham madeira por dentro e nunca consegui ver nada. Por fora, a casa estava sempre bem tratada.
Mais tarde, um tio meu que tinha cerca de 90 anos contou-me que eu era como ele, porque também gostava de ir para onde os outros não queriam ir. Foi ele quem me disse que naquela casa tinha vivido uma senhora com as filhas e que lhes aconteceu alguma coisa. Nunca mais ninguém as viu.
Depois começaram os relatos daquela mulher metade cobra e metade humana. O meu tio mostrou-me uma fotografia da senhora que tinha vivido ali e eu fiquei impressionado: era igual à mulher-cobra que eu tinha visto. Quando lhe disse isso, ele respondeu que também a tinha chegado a ver.” Até hoje, em minhas férias do trabalho vou lá e as pessoas continuam contando que ela ainda aparece para algumas pessoas.










