Meu nome é Deocleciano, mas sou conhecido como D.O, moro em Itapiranga e tenho um milharal no Madrubá, uma área onde as pessoas que criam gado costumam fazer seus campos. Eu plantei um milharal no terreno do meu pai e sempre ia lá, pois o milharal superou minhas expectativas e deu muitas espigas. Mas quero falar sobre o espantalho que tinha lá no milharal. E nem fui eu quem fez aquele espantalho. Ele já estava na propriedade quando compramos o sítio. Velho, torto, com uma camisa rasgada e um chapéu que parecia ter décadas de chuva e sol nas costas. Nos primeiros meses nem prestei atenção nele. Até o dia em que fui mostrar a plantação para um amigo.
Apontei para o espantalho e ele perguntou:— Você mudou ele de lugar? Respondi que não. Mas depois fiquei pensando naquilo. Porque eu tinha certeza de que ele costumava ficar perto da cerca. Na manhã seguinte, quando saí de casa, vi o espantalho no meio da plantação. Achei estranho. Só que imaginei que minha memória estivesse me pregando uma peça. Então resolvi fazer um teste. Tirei uma foto dele antes de escurecer. No outro dia comparei. Não era impressão.
Ele tinha mudado de lugar. Uns quinze metros. Passei a fotografar toda noite. E durante uma semana inteira aconteceu a mesma coisa. Sempre uma posição diferente. Sempre mais perto da casa. O estranho era que a base dele era um tronco pesado enterrado fundo na terra. Não era algo que o vento pudesse arrastar. Nem havia marcas de alguém carregando. Depois de alguns dias parei de achar graça. Resolvi ficar acordado para descobrir quem estava fazendo aquilo. Apaguei as luzes da varanda e sentei observando a plantação. Nada aconteceu. Nenhum movimento. Nenhum som. Quando o céu começou a clarear, entrei para fazer café. Fiquei dentro de casa menos de cinco minutos. Quando voltei para a varanda, quase derrubei a caneca. O espantalho não estava mais na plantação. Estava parado do outro lado da cerca. Olhando diretamente para a casa. Desde então eu não cheguei perto dele novamente. E o motivo é simples. Na última foto que tirei antes de abandonar aquele sítio, havia uma coisa diferente. O chapéu era o mesmo. A roupa era a mesma. Mas agora dava para ver um rosto onde antes só existia palha. E era parecido com o meu.








