No ano de 2023 eu trabalhei em uma fazenda cuja cultura mudou de bovina para plantação de milho em uma grande área de várzea, muito mais lucrativa para meu patrão, que bater cabeça com gado. Devido ao grande acúmulo de pássaros que vinham bicar as espigas, colocamos vários espantalhos, que chamávamos de Judas. Nesse local, venta muito e a incidência de relâmpagos é muito alta. Então era comum perder alguns espantalhos depois de uma ventania. A estaca apodrecia, o vento derrubava e pronto.
Por isso nem estranhei quando vi um deles caído logo cedo. Peguei uma enxada e fui até lá para levantar. Antes de chegar, olhei para os outros espalhados pela plantação. Todos continuavam de pé. Quando coloquei a mão no espantalho que estava no chão, percebi que a estaca não tinha quebrado. Ela tinha sido arrancada inteira da terra. Fiquei olhando o buraco. Era fundo, e a madeira ainda estava firme. Não fazia sentido ter saído daquele jeito. Mesmo assim, recoloquei no lugar e voltei para o serviço.
Na manhã seguinte, ele estava caído de novo. No mesmo ponto. Pensei que alguém estivesse fazendo brincadeira. Esperei anoitecer e escondi a caminhonete perto da estrada para ver se aparecia alguém. Fiquei quase duas horas olhando para a plantação. Ninguém entrou. Quando resolvi ir embora, dei uma última olhada. Todos os espantalhos ainda estavam de pé. Menos aquele. Já estava no chão outra vez.
No dia seguinte contei isso para um senhor que trabalhava ali havia muitos anos. Ele nem demonstrou surpresa. Só perguntou:— Você levantou ele, de novo? Respondi que sim. Ele balançou a cabeça e disse:— Não faz mais isso. Perguntei o motivo. Ele respondeu que aquele era o único espantalho da lavoura que nunca permanecia em pé por mais de uma noite. Achei que ele estivesse inventando história. Mas, na semana seguinte, passei pelo mesmo lugar antes do amanhecer.
O espantalho continuava caído. Os outros continuavam exatamente onde sempre estiveram. Só havia uma diferença. A terra ao redor daquele estava toda marcada, como se alguma coisa muito pesada tivesse ficado parada ali durante horas. E as marcas não vinham de fora da plantação. Elas começavam exatamente no lugar onde o espantalho costumava ficar de pé.






