Meu nome é Marcelo, sou de uma comunidade pequena perto de Manaus, na Ilha da Marchantaria. Durante alguns anos trabalhei como caseiro em uma fazenda de gado. Dormia numa casa simples, a uns trezentos metros do curral, e era comum levantar de madrugada quando algum cachorro latia ou quando escutava o gado se agitando. Numa dessas noites acordei sem saber o motivo. Olhei o relógio, eram 2h17. O curioso é que não tinha barulho nenhum. Nem cachorro, nem grilo, nem o vento passando pelo mato.
Resolvi sair para ver se estava tudo certo. Quando iluminei o pasto com a lanterna, vi as vacas reunidas perto de uma árvore que ficava isolada no meio do terreno. Eram dez, todas paradas, uma ao lado da outra. Achei estranho porque elas costumavam dormir espalhadas. Fiquei observando por alguns minutos esperando que alguma se movesse. Nenhuma mexeu um músculo. Pareciam completamente concentradas em alguma coisa que estava do outro lado do tronco.
Caminhei pela cerca até conseguir enxergar a árvore por outro ângulo. Não tinha ninguém. Passei a luz devagar pelo chão, pelos galhos e pelo capim alto. Nada.Enquanto eu procurava alguma explicação, ouvi um mugido curto atrás de mim.Olhei para as vacas. As dez continuavam olhando para a árvore. O barulho não tinha vindo delas. Foi aí que comecei a reparar em outra coisa. Todas estavam com as orelhas apontadas para frente, mas nenhuma balançava o rabo para espantar inseto. Também não mastigavam, não piscavam e quase não respiravam.
Pareciam estátuas. Resolvi voltar para casa e esperar amanhecer. Antes de entrar, olhei mais uma vez para o pasto. Elas continuavam exatamente na mesma posição. Quando o dia clareou, fui até a árvore. O chão em volta estava cheio de marcas das patas, formando um círculo perfeito ao redor do tronco, mas o centro permanecia intacto, como se nenhuma delas tivesse tido coragem de chegar perto.Contei isso para o dono da fazenda.
Ele ficou quieto por alguns segundos e disse que, muitos anos antes de eu trabalhar lá, já tinham comentado sobre aquele mesmo comportamento do gado naquela árvore.A diferença é que, segundo ele, naquela época ninguém levou a história a sério. Então resolveram cortar a árvore. Ela caiu para um lado. E, alguns meses depois, outra começou a nascer exatamente no mesmo lugar.










