ARRECAÇÃO RECORDE
Manaus amanheceu de novo com a conta aberta sobre a mesa. Não é conta de luz, de água, de supermercado, de remédio, de passagem de ônibus, de gás de cozinha. É a conta moral de uma cidade que arrecada, produz, trabalha, exporta, concede incentivos, sustenta discurso oficial, mas mantém quase um terço de sua população vivendo na pobreza. Trinta vírgula um por cento. Fala sério!!! Até o defensor ambientalista e pré-candidato a deputado estadual, Matheus Garcia, arregalou os olhos, pois conhece a realidade dos rios e áreas periféricas da cidade, pois vem denunciando isso em suas redes sociais.
Quase um em cada três moradores de Manaus está oficialmente enquadrado na pobreza, segundo o 17º boletim Desigualdade nas Metrópoles, produzido pela PUC-RS Data Social em parceria com o Observatório das Metrópoles da UFRJ. Enquanto as regiões metropolitanas brasileiras registraram queda da pobreza para 18,4%, o menor patamar da série histórica iniciada em 2012, Manaus aparece com 30,1%. A pergunta que incomoda, e por isso precisa ser feita sem anestesia, é simples: Cadê o dinheiro?

Cadê o Dinheiro?
Cadê o dinheirão que o Estado arrecadou? Cadê o ICMS? Cadê a contrapartida social dos bilhões que circulam no Amazonas? Cadê o planejamento? Cadê a prioridade? Cadê a vergonha estatística diante de uma capital onde a pobreza continua morando na esquina, no igarapé, na periferia, no ônibus lotado, na mãe que pula refeição, no jovem que não encontra trabalho, no trabalhador que acorda cedo e mesmo assim não fecha o mês? Em se tratando de falta de dinheiro circulando… É uma cidade empobrecida por excesso de improviso, concentração, abandono e espetáculo administrativo. Há dinheiro para propaganda, para palanque, para obra de ocasião, para festa, para contrato vistoso, para solenidade, para fotografia oficial.
Mas quando o dado aparece, seco e cruel, revelando que quase um terço da população vive na pobreza, todos procuram uma gaveta onde esconder o relatório. O Brasil metropolitano melhorou. As metrópoles reduziram pobreza. A renda do trabalho ajudou. Políticas sociais ajudaram. Mesmo com a desigualdade ainda indecente, houve algum movimento. Mas Manaus continua carregando a marca de uma cidade que produz riqueza sem distribuir cidadania na mesma proporção.

E aqui mora a provocação
O Amazonas possui uma das economias mais estratégicas do país. Abriga o Polo Industrial de Manaus, movimenta uma engrenagem produtiva complexa e lidera debates sobre bioeconomia, floresta em pé, COP 30, transição energética, inovação, ESG, futuro verde, inteligência artificial e indústria 4.0. Tudo isso soa muito bem nos discursos e apresentações oficiais.
No entanto, a realidade impõe uma pergunta incômoda: como uma capital com tamanha relevância econômica convive com uma taxa de pobreza que atinge 30,1% da população?
Antes de falar sobre o futuro, seria necessário explicar o presente. Como a arrecadação pública cresce enquanto uma parcela tão significativa da população continua vivendo em condições precárias? Como justificar que o cidadão pague impostos no arroz, no feijão, no combustível, no remédio e no botijão de gás, mas não veja esse esforço se converter em melhorias concretas na sua qualidade de vida?
A pobreza em Manaus não surgiu por acaso. Ao longo dos anos, gestores empurraram o problema para a periferia, toleraram desigualdades históricas e trataram a exclusão social como parte da paisagem urbana. Assim, muitos passaram a enxergar a pobreza como algo inevitável, quando, na verdade, ela resulta de escolhas políticas, prioridades administrativas e ausência de planejamento eficaz.
Em Manaus, o pobre paga caro para viver mal. Paga por um transporte deficiente, enfrenta alimentos cada vez mais caros, arca com tarifas elevadas de energia e contrata internet para tentar estudar ou trabalhar. Além disso, compra remédios quando faltam nos postos de saúde, perde horas em filas e convive diariamente com a precariedade dos serviços públicos. Ainda assim, continua financiando o Estado por meio dos impostos embutidos em praticamente tudo o que consome. Depois de tudo isso, ainda escuta que faltam recursos.

Falta recurso onde?
Falta recurso na casa de quem não consegue comprar proteína. Falta recurso na escola sem estrutura. Falta recurso na unidade básica que não atende direito. Falta recurso no saneamento que nunca chega. Falta recurso no bairro onde a chuva vira tragédia. No cofre público, a conversa é outra. O dinheiro existe. O que parece faltar é prioridade republicana. De tanto conviver com suas contradições. Tem indústria sofisticada e esgoto a céu aberto. Tem discurso de modernidade e infância vulnerável. Tem arrecadação robusta e famílias sem renda suficiente. Tem elite política tagarela e povo calado pela urgência de sobreviver.
A pobreza de 30,1% soa como um vexame, vexame que deveria suspender o desfile de vaidades. Deveria obrigar governo, Assembleia, Câmara, Tribunal de Contas, Ministério Público, empresários, universidades e entidades civis a sentarem à mesma mesa para responder uma pergunta elementar. O que está sendo feito, com método, meta e orçamento, para tirar Manaus desse vexame?

Não vale resposta de release
Não vale foto entregando cesta básica. Não vale inauguração com balão. Não vale culpar apenas Brasília, a pandemia, o passado, o clima, a geografia, a cheia, a seca, o preço do combustível ou o azar amazônico. A pobreza tem causas estruturais, claro. Mas também tem endereço administrativo. E quando o Estado arrecada muito e entrega pouco, a estatística vira denúncia.
Então, fala sério, Laranjal. Se quase um terço de Manaus vive na pobreza, o debate público precisa sair do fingimento. A cidade não precisa apenas de mais dinheiro. Precisa saber quem decide o destino do dinheiro que já existe. Precisa de orçamento orientado por resultado social. Precisa de transparência que qualquer cidadão entenda. Precisa de prioridade para infância, emprego, saneamento, mobilidade, qualificação profissional, habitação, saúde básica e segurança alimentar.

Precisa, sobretudo, parar de tratar pobreza como rodapé de relatório.
Porque pobre não é número decorativo de relatório, estatística de seminário ou rodapé de estudo acadêmico. Pobreza tem rosto, endereço e nome. É gente de verdade. Gente que acorda antes do sol nascer, enfrenta ônibus lotado, corre atrás de trabalho, faz conta de cabeça no supermercado, corta itens da compra para fechar o orçamento, divide comida dentro de casa e cria os filhos no aperto.
É gente que espera por um Estado que funciona com impressionante eficiência para arrecadar impostos, mas que costuma desaparecer quando chega a hora de devolver dignidade, serviços e oportunidades. O cidadão paga imposto no arroz, no feijão, na energia, no combustível, no remédio, na roupa e até no botijão de gás. Paga sempre. Paga muito. E recebe pouco.
Por isso, a pergunta continua de pé e exige resposta. Se o Amazonas arrecada bilhões, se Manaus movimenta uma das economias mais importantes do país e se o discurso oficial fala tanto em desenvolvimento, inovação e futuro sustentável, onde está esse dinheiro? Onde ele chega? Quem realmente se beneficia dele?
Porque, olhando para a realidade das ruas, dos bairros periféricos e das famílias que lutam para sobreviver, a dúvida é inevitável: cadê o dinheirão, mermão?






