Parte 1
Meu nome é Gerson Almeida e esse fato aconteceu na Década de 70, no bairro de Santo Antônio e onde seria o futuro bairro da Compensa. Só havia casas até a fábrica da Compensa e Areal, de lá em diante, só a mata fechada na área que pertencia à viúva Borel. Tinha uma casa onde antes funcionou uma granja que tinha fama de ser mal-assombrada. Lenda ou realidade, o fato é que nenhum menino se atrevia a passar por ali. Na infância mais profunda, todos os meus pesadelos tinham locação única e barata: era ali. Um dia, voltando de uma aula de catecismo, que era sobre o poder da fé, resolvi seguir a estrada de barroe ver no que aquilo ia dar. Num atalho que não conhecia, quis voltar, mas a curiosidade de conhecer o mundo me levou adiante. De repente, com pavor no coração e tremor nas pernas, estava diante da casa mal-assombrada. Olhando bem, era uma casa igual às outras, tinha mangueiras ao lado e uma menina de franjinha na única janela aberta. Ela parecia admirada de ver alguém chegar ali. Fiquei parado, um pouco pelo medo, um pouco pelo encantamento. Apesar da franjinha, a menina era tão fofinha como os anjinhos que havia na igreja do padre Leão.
Perguntou se eu queria alguma coisa. Não, não queria nada embora querendo tudo – tal como hoje, tantos anos depois. Quis saber o meu nome, onde eu morava, o que fazia ali. Respondi com honestidade, a mesma com a qual, mais tarde, responderia aos formulários do imposto de renda: a verdade possível. Depois do interrogatório, veio o convite inesperado: “Quer namorar comigo?” Disse que sim. Prometi voltar no dia seguinte, embora sabendo que nunca mais botaria os pés naquele chão assombrado.
Continua











